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RAÍZES

Partindo de um exercício de observação do cenário urbano, executado durante a realização da disciplina “Projetos Avançados em Espaço, Tempo e Forma", ministrada pela professora Tânia Bittencourt Bloomfield, no curso de Artes Visuais da Universidade Federal do Paraná, este projeto se preocupou em estabelecer um estudo interventivo nos espaços dedicados à arborização das ruas de Curitiba. 

Assim como nas cidades europeias do século XVII, que foram remanejadas com a expansão da estética barroca, o centro da capital paranaense possui uma arquitetura que é marcada por um sistema de percursos que convergem em pontos referenciais envoltos por uma natureza que, na maioria das vezes, é vista como “controlada”. Segundo a pesquisa “A Paisagem da Floresta Urbana de Curitiba-PR”, publicada na Revista da Sociedade Brasileira de Arborização Urbana, a cidade é tida como uma referência ecológica, com seu desenvolvimento histórico associado às questões ambientais desde 1721, quando o ouvidor Raphael Pardinho começou a demonstrar uma certa preocupação sobre alguns aspectos ambientais. No século XIX, iniciou-se de fato o processo de “arborização”, com o plantio das primeiras árvores em locais públicos e, em 1870, houve o desenvolvimento do “Cinturão Verde” no entorno da cidade e o plantio nos largos, que são os precursores das praças da capital. Além disso, vale ressaltar que o Plano Diretor,  o qual conduziu o crescimento urbanístico associado à conservação das áreas verdes e à qualidade de vida dos cidadãos, foi estabelecido somente em 1966 (IPPUC, 2014). Atualmente, partindo da criação do “Projeto 100 Mil Árvores”, lançado pela Prefeitura de Curitiba no ano de 2019, a Secretaria de Meio Ambiente pretende disponibilizar mensalmente e de forma gratuita mudas de árvores de espécies como ipês, uvaia, pitanga, palmeira imperial, gabiroba, araçá e guabijú, como parte dos esforços de chegar aos 330 mil plantios na comemoração dos 330 anos da cidade, em 29 de março. Para organizar e controlar esta mobilização, a página do programa orienta que, antes de plantar a muda em locais públicos, é necessário que a população entre em contato com a Secretaria Municipal do Meio Ambiente, para que as equipes do Horto Municipal da Barreirinha possam fazer vistorias e garantir o crescimento saudável das mudas, observando os tutores (bastão de madeira que sustenta e protege de quebra), a adubação do solo e solicitando a eventual remoção de árvores que estejam desativadas.

No entanto, apesar de se ter um prévio planejamento e uma suposta fiscalização contínua quanto ao plantio de árvores no ambiente urbano, em muitos casos alguns cuidados extremamente importantes são subestimados e acabam prejudicando tanto o desenvolvimento deste ser vivo, quanto a circulação de pedestres pelas calçadas, por exemplo. No geral, além de levar em consideração a distância de esquinas, postes de fiação e de iluminação, de entradas de garagem, de guias rebaixadas, do meio-fio, de placas de identificação e sinalização, de construções e instalações subterrâneas, deve-se pensar no espaçamento entre uma espécie e outra. Dentro deste pequeno espaço delimitado por tantas regulamentações, que raramente é encontrado dentro do cenário urbano, as raízes de algumas das árvores plantadas parecem protestar contra as condições impostas à elas e transbordam para fora, formando diversas rachaduras no concreto que as cercam, como se estivessem abrindo mão de seu aspecto decorativo e criando seu próprio caminho: para além de fazerem esse movimento com o objetivo de conseguir mais território, as raízes transmitem a ideia de estarem se deslocando para ir ao encontro de alguém ou de alguma outra coisa. Sobre este comportamento, Peter Wohlleben, quando relata sua experiência com a silvicultura moderna no livro “A vida secreta das árvores”, afirma que esses seres além de conseguirem sentir dor terem memória, vivem com seus familiares e formam redes colaborativas com outras plantas e organismos que estão ao seu redor. Contudo, essa é uma realidade que pode ser vista somente em florestas naturais, uma vez que as árvores que são plantadas em locais pré-determinados têm suas raízes danificadas de maneira permanente e, como parecem nunca encontrar suas vizinhas, se comportam como indivíduos solitários e enfrentam dificuldades que, na maioria dos casos, modificam sua formação e/ou expectativa de vida. Mas então, o que esta manifestação significa? Existe algum outro motivo, que vai além da conquista por uma porção de território mais amplo?

Diante destes apontamentos, a intervenção artística registrada aqui tem como objetivo principal tensionar e questionar as relações estabelecidas quanto ao entendimento de que as árvores servem somente como um elemento decorativo ou então, de que devem preencher apenas um local idealizado, onde suas raízes mal podem se desenvolver e se quer instituir uma comunicação com as espécies que estão plantadas ao seu redor. Para tanto, fora as referências textuais analisadas, vale ressaltar que as propostas desenvolvidas pelo Coletivo Interluxartelivre e pelo Grupo Poro, assim como algumas das obras dos artistas Brígida Campbell e Lucas Dupin foram levadas em consideração, principalmente para pensar a forma com que os materiais usados para a intervir no espaço seriam inseridos no contexto urbano. Além disso, uma das principais reflexões que compõem a publicação “Intervalo, respiro, pequenos deslocamentos – ações poéticas do Poro” teve certa relevância ao longo de todo o processo de elaboração deste projeto: o ato de construir uma situação que foge do convívio costumeiro dos locais públicos, implica desafios que não podem ser relacionados somente ao caráter criador, mas também à análise da forma com que determinado lugar será ocupado pela obra e, se tratando de um lugar em que a própria estrutura da árvore apresenta limitações para o seu desenvolvimento, essa atenção deve ser redobrada. 

Realizada durante o período da manhã do dia 14 de fevereiro de 2023, em duas ruas próximas ao parque Parque Guairacá no bairro Fazendinha em Curitiba-PR, a intervenção foi construída próxima ao solo, de forma sutil, ficando visível somente para os transeuntes que passarem pelo local e dirigirem o olhar até as raízes das árvores. Os arames, modelados e posicionados sobre a grama e sobre a estrutura de uma calçada e de um muro que já apresentam rachaduras e degradações, tem o único e principal objetivo de simular o embate entre aquilo que é estabelecido culturalmente e o desenvolvimento das plantas em um ambiente propriamente urbano. Além disso, vale ressaltar que os fios de arame foram colocados sobre as raízes de forma cuidadosa e, o aspecto metálico do material, foi escolhido com o intuito de remeter ainda mais a ideia de urbanização da cidade, além de ser um corpo estranho em meio a natureza. Estes primeiros desdobramentos do projeto serviram como base para analisar os próximos passos que, futuramente, serão colocados em prática e em outros locais da cidade de Curitiba, sendo um dos principais pontos, aquilo que diz respeito ao adensamento da forma e a consequente extensão pelo ambiente, onde os fios de arame também alcançarão os troncos das árvores e/ou subirão por lugares marcados pelo concreto.

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